Por Juliana Vannucchi
Conversamos com George Luis Borges, Mestre e Bacharel em filosofia pela UFG, pesquisador de filosofia helenística e ética, com foco, sobretudo, no cinismo de Diógenes de Sínope e no estoicismo de Sêneca e Aríston.
George refletiu sobre a importância do cinismo no mundo atual, sobre as relações possíveis entre essa escola filosófica e a figura de Deus, dentre outros tópicos. Confira!
1. Um aspecto muito interessante e marcante a respeito do cinismo é a lamparina que Diógenes de Sínope portava. Poderia nos dizer o que esse objeto representa em tal contexto filosófico?
Essa lamparina aparece no passo 41 do livro VI de Diógenes Laércio e também em algumas outras fontes. Trata-se de uma passagem muito relevante em vários aspectos. Também há menções em Tertuliano e em Fílon. A passagem de Diógenes Laércio se refere a um trecho em que Diógenes de Sínope procura um homem, segurando uma lanterna, à luz do dia, sendo isso bem curioso, já que a lanterna é utilizada na ausência de luz.
O contexto simbólico da ação está no fato de que desde a tradição antiga, que remonta a Platão e Aristóteles, a luz é vista como um símbolo do conhecimento e do saber. No Mito da Caverna de Platão, o sol é o signo das Ideias imutáveis e perfeitas. Em Aristóteles, a visão é tida como o sentido mais importante. Diógenes brinca com isso, pois não estando contente com a luz do dia, acende uma lanterna. Parece que ele está procurando algo que não consegue encontrar. É como se a própria luz fosse insuficiente para ele. Como se lhe faltasse alguma coisa.
Mas esse referido trecho também é compreendido como uma mera ironia de Diógenes, indicando que ele estaria procurando um homem, no sentido de um sujeito virtuoso, provocando, de certa forma, as pessoas que o viam com a lamparina. Trata-se, portanto, de uma passagem bastante espinhosa que divide os comentadores e intérpretes entre uma interpretação moral e nominalista. De maneira geral, parece-me que a lanterna mostra uma posição ambivalente de Diógenes, pois, por um lado, expressa uma face pessimista do filósofo cínico, que ilumina as coisas mesmo quando há luz do sol, fato este que releva a insuficiência de encontrar o que se procura, o que indica que a lanterna é como uma busca por ajuda. Por outro lado, há uma posição otimista, porque mesmo não encontrando o que ele busca, ainda assim ele continua procurando. Ou seja: podemos compreender a questão a partir de uma visão pessimista levando em conta que a própria luz do sol é, de algum modo, insuficiente para seus intentos, e também sob uma ótica otimista, porque ele persevera. Esse pessimismo de Diógenes é parecido com aquele que vemos em Nietzsche: um pessimismo revigorante, de afirmação, não por acaso essa imagem da lanterna é retomada por Nietzsche algumas vezes. Daqui podemos extrair uma posição de força: não se trata, afinal, de um pessimismo que deprime e abandona o mundo, mas sim do que engaja e quer buscar o melhor dele. É um pessimismo que mostra força mesmo diante das dificuldades.
2. Quais são os fins práticos do cinismo, levando em conta que todas as escolas filosóficas do período helenístico, de alguma maneira, visavam o exercício filosófico na vida cotidiana?
Diógenes Laércio, no passo 71 do livro VI, indica que o próprio Diógenes de Sínope colocava a liberdade como o grande objetivo do cinismo. Luciano, no “Leilão dos Filósofos”, também mimetizou que quando Diógenes foi vendido o anunciaram como um “libertador” e um “médico das paixões”. Portanto, acredito que a liberdade, que conduz à felicidade, seja o grande objetivo dos filósofos cínicos. A vida moral cínica e seu espírito crítico, ao que me parece, convergem para a liberdade. Diógenes de Sínope, conforme pretendo mostrar em minhas pesquisas, quer incitar as pessoas a serem livres, mas observemos que isso é feito de uma maneira muito sutil, pois ele não pode simplesmente dizer que há um cronograma específico para libertar alguém, ele não pode conceber essa liberdade. Desse modo, trata-se mais de “inspirar” alguém a ser livre do que “ensinar”. Nesse âmbito, Diógenes é uma espécie de tutor que guia as pessoas através de seus próprios exemplos para que cada um desenvolva, assim, seus próprios métodos, exercícios e ascese para atingir sua própria liberdade. Considerando as abordagens feitas até o momento, o leitor pode se perguntar: ora, mas como Diógenes, que foi preso por piratas, pedia esmola e, de certa maneira, dependia dos outros para comer e viver, ensinaria alguém a ser livre? Bem, note-se que a liberdade da qual estou falando não está ligada a esses tipos de impedimento, como posição social e econômica, mas sim a um espírito crítico que fará com que você não seja escravizado, mesmo que que seja preso por piratas. É isso que Diógenes busca promover.

3. De que forma a filosofia de Diógenes de Sínope pode ser saudável para alguém no mundo de hoje?
É difícil falar sobre uma aplicação da filosofia de Diógenes porque isso é uma coisa muito particular, depende muito de como uma determinada pessoa entende a filosofia dele, do que ela está enfrentando e de quais são suas experiências. Porém, posso falar sobre a minha própria experiência. Diógenes me ensinou a disciplina, essa disciplina contida no ascetismo rigoroso dos cínicos, tratado nas fontes antigas como um “remédio amargado”, mas que particularmente tem sido um ensinamento importante, que posso aplicar em meu cotidiano. De qualquer forma, o cinismo é uma filosofia bem aberta e cada um pode extrair ensinamentos de maneira particular. Os próprios filósofos cínicos eram muito diferentes entre si, talvez por isso possamos falar antes em CINISMOS do que em CINISMO, como bem observou Michael Onfray.
4. É possível afirmar que existem relações e aproximações entre os ensinamentos de Jesus Cristo e a filosofia dos cínicos?
É muito tentador fazer esse tipo de comparação, mas precisamos de cautela porque essa questão envolve uma associação de conhecimentos distintos. A princípio, gostaria de observar que essa é uma pergunta difícil e estimulante. Estimulante por envolver a figura de Jesus Cristo, personagem amplamente conhecido no Ocidente mesmo por quem não é cristão. Mas ao mesmo tempo em que é estimulante, é difícil justamente por envolver um domínio de coisas tão diferentes, no caso o cinismo e o cristianismo.Primeiramente, observemos que o cinismo se inicia no século IV a.C. com Diógenes de Sínope (ou Antístenes, dependendo da linha de argumentação), ou seja, quatrocentos anos antes de Jesus. A partir disso, o cinismo se transformou consideravelmente ao longo do tempo. E aqui, portanto, há uma particularidade dessa escola filosófica: ela não envolve um movimento homogêneo, isto é, nenhum cínico tem um cinismo igual ao outro, por isso é difícil fazer uma comparação clara. A filosofia cínica sempre se adaptou a cada personagem e a cada filósofo. A partir disso, a primeira coisa que precisamos compreender é que, no contexto da pergunta feita, o que mais se discute atualmente entre os estudiosos é o cinismo imperial, que é diferente daquele que foi vivido pelos gregos. Além disso, precisamos, certamente, compreender bem a história de Jesus para pensar nessa comparação, e essa tarefa é complexa e particularmente me escapa esse conhecimento. Mas, de fato, há algumas hipóteses e debates desenvolvidos por alguns pesquisadores que procuram comparar a figura de Jesus com o cinismo. Gerald Downing é possivelmente o mais conhecido dentre eles. Downing escreveu uma série de artigos sobre esse tema e também é autor de um livro sobre o assunto, chamado “Cynics and Early Christianity” que, infelizmente, não foi traduzido em língua portuguesa. Há outros materiais interessantes a respeito, como um artigo de Paul Rhodes Eddy intitulado “Jesus as Diogenes? Reflections on the Cynic Jesus Thesis”. Vale citar ainda a Goulet-Cazé, pesquisadora que também explora esse tema de maneira bem rigorosa em “Cynisme et christianisme dans l’Antiquité”.
De todo modo, podemos pensar numa aproximação possível, que a meu ver é bastante clara, a partir das anedotas. No sentido expositivo, temos relatos dos ditos e feitos da vida de Jesus Cristo, ou seja, a tradição literária sobre Jesus foi construída por meio das palavras que narram histórias sobre sua vida, e até mesmo das próprias parábolas que Jesus contava a seus discípulos. O mesmo se dá com a tradição literária cínica que, em suma, é construída a partir de relatos dos que os filósofos disseram e fizeram.
5 – Atualmente, talvez estejamos muito afastados do modo de vida simples proposto pelo filósofo. Parece que a maior parte das pessoas preza pelas regras de vida civilizada e pelos ditames da tradição e, ao que tudo indica, trilhamos, assim, um caminho distante da proposta filosófica de Diógenes. Essa comparação faz algum sentido para você?
Concordo com o preâmbulo da questão. Gosto muito do livro de Charles Taylor, “As fontes do self”, em que ele formula uma hipótese sobre a formação da identidade moderna e do self ocidental. Como surgiu o “eu ocidental”, que é muito diferente do “eu oriental’? Como surge a consciência ocidental? Taylor considera que a partir do advento do liberalismo, nós passamos a ficar muito individualistas. E vejo que hoje estamos muito à mercê de um movimento que não entendemos muito bem.
Desejo um dia pesquisar sobre a discussão moral atrelada ao uso das mídias digitais. Hoje, nossos espaços públicos são digitais e eles formam bolhas. Interessa-me muito especialmente o caso do Instagram. Temos hoje ideais semelhantes aos gregos de perfeição estética e moral, e as marcas procuram pessoas que julgam bonitas e de algum modo personificam essas categorias, semelhante àquelas de Platão: o Belo, o Justo e o Bom. O problema é que qualquer indivíduo, por melhor que seja e por melhor assessorado que seja, ainda falhará, deixará de cumprir com esse ideal projetado pelas marcas e pelos seguidores. As marcas, por sua vez, tentam extrair o máximo enquanto é possível, sugando o capital moral e o estético dos influencers. Ou seja, em primeiro lugar, me parece que as pessoas não percebem que a discussão sobre o que é vida boa acaba se deslocando para uma discussão se tal pessoa é ruim ou boa. Por sua vez, a discussão acaba se esvaziando, porque os valores são discutidos lateralmente – o que interessa nesses casos são os influencers e as marcas. Isso é um sintoma do individualismo de nossos tempos, que se radicaliza cada vez mais, desde o século XVIII. Em segundo lugar, também mostra como são importantes as referências para as pessoas. Algo muito marcante para a filosofia antiga, especialmente a helenística e a imperial. As pessoas procuram incessantemente um modelo, mas, devido às par4ticularidades do nosso tempo, se limitam a seguir o “estilo de vida” desse modelo apenas no que se refere ao consumo. Os valores se tornam uma desculpa para chancelar o estilo de vida e são relegados a um segundo plano.
Em termos filosóficos, acho que nunca fomos tão rigorosos com os avanços teóricos da metaética e etc., mas a discussão pública de boa vida está à deriva. Então, o que isso tudo tem a ver com Diógenes?
Em certa medida, essa postura radical que vemos em muitas pessoas remete um pouco ao cinismo. Isso porque essa escola filosófica tem como característica marcante colocar no próprio indivíduo a capacidade de conduzir a própria vida. E talvez seja isso que nos falte hoje. Projetamos o protagonismo que é nosso para o outro, para a personalidade do Instagram que seguimos, como se nós mesmos não fizéssemos parte do mundo. Certamente me parece que esse é um fenômeno que Diógenes denunciaria, uma vez que na antiguidade, esse era seu papel: ser o vigilante, o kataskopos, de seus contemporâneos. A ideia principal disso tudo é que o nosso movimento moderno das redes sociais gera um policiamento gigantesco, diante do qual se perde parcialmente a identidade, a responsabilidade e a autenticidade. Recuperando Foucault, há uma perda do “cuidado de si”.
6. Quais são os principais núcleos de estudos brasileiros sobre o cinismo? Poderia indicar algumas referências aos leitores que pretendem se aprofundar no assunto?
Infelizmente, esse estudo ainda não engrenou em nosso país. Não posso dizer que há um grande núcleo de estudos cínicos. Há algumas células valiosas, como o GT Epicteto e Marginalia Filosófica, organizado pelo Aldo Dinucci da UFPI que, embora tenha como enfoque a filosofia de Epicteto, de modo geral, abre espaço para as discussões sobre o cinismo. Nesse caso cabe lembrar que Epicteto tinha uma grande admiração por Diógenes, além de ser um profundo devedor da filosofia de Antístenes.
Também é preciso citar Olimar Flores Júnior, da UFMG, professor do departamento de Letras, que é a grande referência de estudos cínicos no Brasil e no mundo, e oxigena com muito vigor os debates sobre o cinismo. Jacyntho Brandão, também da UFMG, é outra referência importante, sobretudo em relação a Luciano de Samósata. Esses dois nomes são ótimas portas de entrada para quem quer estudar o assunto.
Não há muitos conteúdos traduzidos em português, mas posso sugerir. “O Movimento Cínico na Antiguidade e seu Legado”, traduzido pela Loyola, é um livro bom. Também há uma tradução de Mário da Gama Cury de “Vida e Doutrinas dos Filósofos Ilustres”, de Diógenes Laércio – livro obrigatório por se tratar de uma referência das fontes antigas. Há muitas boas referências em francês, das quais indico livros e artigos de Isabella Choinard, Étienne Helmer, Goulet-Cazé, Maxime Chapuis, Suzanne Husson; em espanhol, há Pedro Fuentes González… todos eles trabalham com muito rigor diferentes aspectos da filosofia cínica.
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