Por Juliana Vannucchi
Para a edição inaugural da nossa revista filosófica escolhemos uma das mais célebres narrativas da mitologia grega. Trata-se da história de Belerofonte. Antes de prosseguirmos, tenha-se em mente que as narrativas mitológicas constituem um tipo específico de história na qual sempre há algo oculto, esperando para ser desvendado, ou seja, as mensagens ali contidas estão veladas e não são explícitas. Os caminhos interpretativos são vários, embora sempre profundos e capazes de revelar algo sobre nós próprios, sobre nossa vida, nossas dificuldades, desafios, dramas, etc. Isso ocorre porque o significado de um mito é arquétipo, portanto, ultrapassa o tempo e o espaço e, dessa maneira, pode fazer sentido na vida de qualquer ser humano, independentemente da época ou do tempo em que a pessoa esteja situada. Aqui, portanto, iremos propor uma dessas possíveis vias interpretativas.

O rei, enfurecido, mandou Belerofonte para a corte de seu sogro Iobátes, rei da Lícia, e pediu para que ele matasse Belerofonte. Contudo, isso não poderia ser feito, uma vez que ambos já haviam feito uma refeição juntos. Iobátes, então, decidiu atribuir uma série de missões mortais ao seu visitante, dentre as quais estava enfrentar a Quimera, uma criatura extremamente perigosa e ameaçadora. Essa era uma forma de, indiretamente, tirar a vida do visitante. Mas, na companhia de Pégaso, Belerofonte matou a Quimera com notável destreza. As outras missões a ele atribuídas também foram todas cumpridas com grande êxito. Orgulhoso de si, o herói montou em seu cavalo alado e tentou inutilmente subir aos céus, a fim de juntar-se aos deuses do Olimpo. Essa atitude não agradou a Zeus, que fez com que Belerofonte caísse e ficasse aleijado.
Vamos nos concentrar, inicialmente, nos três principais personagens que protagonizam a narrativa em questão. Belerofonte é o herói da história e pode ser visto como a representação do ser humano. Mostra, sobretudo, aquilo que temos de divino em nosso interior. Já a Quimera, por sua vez, pode ser entendida como o monstro que nos consome. É o símbolo da ilusão que nos rodeia diariamente. É apresentada na forma de uma cabra, que simboliza os instintos sexuais incontroláveis; um leão, que simboliza a prepotência e a vaidade; e um dragão (ou cabra), que representa a traição e a inveja. Por fim, temos Pégaso, que pode ser visto como símbolo da possibilidade, da oportunidade que temos para corrigir as quimeras e matá-las. Nesse sentido, podemos dizer que a cada amanhecer, temos um novo Pégaso.
Um fato relevante dessa narrativa é que Palas Atena aparece num sonho de Belerofonte para lhe mostrar o local em que Pégaso estava. Ela também presenteia o herói com uma rédea dourada, que ele usa ao se encontrar com o cavalo alado. A mesma deusa também se fez presente no episódio no qual Perseu derrotou a górgona Medusa. Foi Atena que deu a ele um escudo, arma que foi essencial em sua vitória. Ora, Atena é a deusa da sabedoria e da guerra estratégica. Nesses dois exemplos fornecidos, vemos que ela faz com que os heróis se sintam inspirados para vencer suas respectivas batalhas e conquistar seus triunfos. Podemos, com base nisso, dizer que a inspiração provinda da sabedoria é a arma mais nobre para uma luta. Aqui, entendamos luta como qualquer possível obstáculo, vício, fraqueza ou medo que se prostam em nosso dia a dia e que podem ser devidamente combatidos através da sabedoria.
Outro aspecto apresentado na história é batalha contra nossos monstros. Belerofonte luta contra os vários vícios, representados pelo monstro que enfrenta. Nesse contexto, é possível compreender que a quimera está dentro de nós mesmos. Os vícios podem ser entendidos como ilusórios na medida em que, por vezes, parecem inofensivos, ou, então, simplesmente no sentido de que nos iludimos ao tentar ignorar sua existência. Na narrativa em questão, a quimera tenta resistir, mas no final é asfixiada pelo herói. Eis aí a luta da vida contra nossas sombras, contra as nossas feras interiores. Felizmente, temos o auxílio dos deuses que fornecem as ferramentas necessárias para os enfrentamentos (como é o caso de Atena, a sabedoria que nos ilumina e fornece aquilo de que precisamos, estando, portanto, dentro de todas as pessoas e podendo ser sempre ser consultada). A nós, cabe a descoberta da arma adequada para os duelos contra nossos monstros que em tantas ocasiões nos assustam e, de alguma maneira, tentam se impor e nos ferir.
Essa rica narrativa em questão também aborda a vaidade como uma condição para a queda do herói, pois apesar de ter vencido a Quimera, uma tentação permaneceu dentro de Belerofonte: a vaidade. Em certo momento, após ter conquistado a glória, ele acreditou pertencer a um lugar elevado e voou em direção aos deuses. Porém, como vimos acima, Zeus reprovou essa atitude e derrubou o vaidoso Belerofonte, que se tornou paralítico em decorrência do tombo. Ora, no final das contas, a vaidade o fez despencar na vida e lhe causou feridas permanentes… O herói foi puro e até mesmo perfeito em algum momento, mas estava contaminado por um vício que não foi derrotado e muito menos controlado. Essa passagem serve como uma valiosa orientação para que sempre examinemos criticamente nosso interior e, assim, possamos, por ventura, encontrar vícios que tendem a se ocultar. Ademais, vale pensarmos o quanto pode ser perigoso perdermo-nos nas glórias, na aprovação pública e nos aplausos alheios, nos guiando, cegamente apenas em função das multidões, e esquecendo-nos que os grandes heróis sempre portam dentro de si a humildade.
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