O HOMEM MODERNO E SEU GOSTO PELA CONFISSÃO

Por Juliana Vannucchi

Aldous Huxley (1894-1963) destacou-se mundialmente como um dos nomes mais icônicos da literatura inglesa, além de ter sido um dos mais célebres intelectuais de todos os tempos. Em sua obra mais famosa, Admirável mundo novo, Huxley descreve um futuro distópico regido por um governo totalitarista e também caracterizado por lavagem cerebral, banalização do sexo e das drogas. Conforme podemos perceber, o autor, incrivelmente, parece ter previsto elementos sombrios que regem nosso mundo atual. Vale citar que o filósofo Bertrand Russell (1872-1970) foi uma das tantas personalidades importantes a elogiar o livro e a destacar sua relevância reflexiva.

Huxley formou-se com honra pela Universidade de Oxford, na qual lecionou e teve dentre seus alunos outro primoroso nome da literatura inglesa: George Orwell (1903-1950), que se tornou especialmente conhecido pela obra 1984. Foi entusiasta de substâncias como LSD e mescalina, tendo, inclusive, escrito um livro sob efeito da última substância e ingerido altas doses de LSD em seu organismo antes de falecer.

Num ensaio meditativo que certa vez escreveu, o autor contou uma experiência curiosa pela qual passou e que, acredito, serve como material para pensarmos de maneira crítica e reflexiva sobre nosso mundo atual: uma vez, o emissário de um notável jornal americano visitou a Inglaterra e convidou Huxley a escrever um artigo que deveria se basear num dos seguintes temas: “Por que as mulheres não são nenhum mistério para mim” ou “por que o casamento me converteu da minha crença no amor livre”.

Retrato de Vincent Nubiola – Joan Miró (1917).

Huxley, imediatamente se espantou ao tomar conhecimento dessas pautas baseadas em “confissões pessoais” – expressão que teria sido utilizada pelo próprio editor do jornal – e protestou contra as mesmas quando ambas lhe foram propostas. Em suas queixas, o escritor alegou que as mulheres, por exemplo, são misteriosas, sim, mas não mais do que os homens, do que pedras ou do que outros elementos enigmáticos que compõem a existência. Disse também que nunca acreditou em amor livre. Apresentou pautas alternativas a essas, mas todas foram recusadas: “O milhão de leitores “, segundo parecia, só tinha interesse em mim na medida em que eu tivesse sido iniciado nos mistérios de Afrodite, ou convertido da veneração do ilícito Eros à veneração de Himeneu”. (2014, p. 183).

É interessante observar o quanto a futilidade das pautas centradas em confissões públicas surpreendeu Huxley, sendo que em nossos tempos, com o advento das redes sociais, nutre-se, contrariamente, um interesse imenso pela revelação de si mesmo, que faz com que constantemente as pessoas confessem ao mundo suas próprias desventuras. Vivemos, portanto, num período em que o anonimato e a discrição são elementos raros, enquanto o que prevalece é a revelação pessoal.

O emissário do jornal assegurou a Huxley que as propostas colocadas diante do jornal eram as mais populares possíveis, além de valiosas, pois a confissão do escritor a respeito de suas intimidades poderia “ajudar as pessoas a resolverem seus próprios problemas e levar alguma luz à escuridão delas”. Essa tentativa de argumentação não convenceu o escritor, que garantiu preferir a reticência, ou seja, a omissão voluntária à exposição.

E quanto a nós? Estamos mais inclinamos ao lado do emissário, que anteviu, de certa forma, as vantagens públicas e financeiras da exposição pessoal, ou estamos mais propensos a concordar com Aldous Huxley, sendo, como ele, mais reservados?

Referência bibliográfica:

HUXLEY, Aldous. Música na noite & outros ensaios. Rio de Janeiro: L&PM Pocket, 2014.


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